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Quando pensamos em desinfeção, a primeira imagem que nos vem à mente é a de produtos químicos em frascos: lixívia, álcool, amónio quaternário. Mas existe um agente desinfetante que não vem num frasco, não precisa de ser transportado, não deixa resíduos e é um dos oxidantes mais poderosos que a ciência conhece. Chama-se ozono — e é gerado no local, a partir do ar que respiramos.
O ozono é um dos aliados mais versáteis da limpeza profissional. Longe de substituir os métodos tradicionais, atua como um potenciador da desinfeção, especialmente quando combinado com vapor, detergentes e nebulização.
O ozono (O₃) é uma forma alotrópica do oxigénio. Enquanto o oxigénio que respiramos é composto por dois átomos (O₂), o ozono tem três átomos de oxigénio ligados numa molécula instável. Esta instabilidade é a chave do seu poder: o ozono reage rapidamente com outras moléculas, oxidando-as e decomposto-se novamente em oxigénio (O₂) após a reação (1).
Na limpeza profissional, o ozono é gerado artificialmente por geradores de ozono, que convertem o oxigénio do ar em ozono por meio de descarga elétrica de alta voltagem ou de radiação UV (1). Desde janeiro de 2025, todos os equipamentos geradores de ozono comercializados na União Europeia devem estar registados como produtos biocidas ao abrigo do Regulamento (UE) n.º 528/2012 (2).
O mecanismo de ação do ozono é fundamentalmente diferente do dos desinfetantes químicos tradicionais. Enquanto estes atuam por alvos moleculares específicos, o ozono ataca por oxidação direta e indiscriminada das estruturas microbianas (3).
🔬 Oxidação e rutura da parede celular — O ozono oxida diretamente os lípidos e proteínas da parede celular e da membrana dos microrganismos, criando poros e rompendo a sua integridade estrutural. Isto leva ao extravasamento do conteúdo celular e à morte imediata do microrganismo (3, 4).
🔬 Danos aos ácidos nucleicos (DNA/RNA) — O ozono reage com as bases púricas e pirimídicas do DNA e RNA, danificando o material genético do microrganismo e impedindo a sua replicação (3, 5).
🔬 Inativação enzimática — O ozono oxida os grupos sulfidrilo (-SH) das enzimas essenciais ao metabolismo microbiano, paralisando as funções celulares (4).
🔬 Desorganização de biofilmes — Ao contrário de muitos desinfetantes químicos que têm dificuldade em penetrar na matriz EPS dos biofilmes, o ozono, por ser um gás oxidante, consegue difundir-se através da matriz e atacar as bactérias no seu interior (5).
Num estudo europeu realizado num ambiente hospitalar na Croácia em 2023, a desinfeção por ozono demonstrou eficácia significativa na redução de microrganismos aerotransportados, recomendando-se a sua utilização em combinação com limpeza mecânica e ventilação frequente para maximizar os resultados (6).
O ozono é extremamente versátil e pode ser aplicado de três formas principais na limpeza profissional:
Ozono gasoso (desinfeção do ar e superfícies) — O gerador de ozono liberta o gás diretamente no ambiente, preenchendo todo o volume da divisão. Por ser um gás, o ozono alcança locais inacessíveis à limpeza manual: frestas, cantos, debaixo de móveis, condutas de ventilação, estofos e tapetes. Um estudo alemão de 2024 demonstrou que processos de limpeza à base de ozono são eficazes em superfícies de alto contacto em lares de idosos, particularmente em áreas críticas para o controlo de infeções (7).
Água ozonizada (desinfeção de superfícies) — O ozono pode ser dissolvido em água, criando água ozonizada. Esta solução mantém o poder oxidante do ozono durante alguns minutos (tempo de meia-vida curto) e pode ser aplicada por pulverização ou com panos em superfícies. A vantagem é que não deixa resíduos tóxicos e é segura para contacto com alimentos após a evaporação (8).
Ozono em têxteis e objetos — Armários de ozono permitem a descontaminação de têxteis, roupas de trabalho, equipamentos de proteção e objetos delicados que não podem ser lavados com produtos químicos agressivos. No Reino Unido, esta tecnologia tem vindo a ser adotada em ambientes de saúde e de hotelaria (9).
Uma das grandes vantagens do ozono é que a sua aplicação não requer a presença de um operador no ambiente: o gerador é programado, o espaço é evacuado e, após o ciclo, o ozono decompõe-se naturalmente em oxigénio, sem deixar resíduos. A Comissão Europeia aprovou o ozono gerado a partir de oxigénio como substância ativa para utilização em produtos biocidas dos tipos PT2 (desinfetantes para superfícies), PT4 (área alimentar) e PT5 (água potável) através do Regulamento de Execução (UE) 2023/1078 (10).
Oxidação superior — O ozono tem um potencial de oxidação de 2,07 V, superior ao do cloro (1,36 V), do peróxido de hidrogénio (1,78 V) e do dióxido de cloro (1,57 V). Isto significa que reage mais rapidamente e com uma gama mais alargada de microrganismos (11).
Eliminação de biofilmes — Ao contrário de muitos desinfetantes químicos que têm dificuldade em penetrar biofilmes, o ozono, pela sua natureza gasosa, consegue difundir-se na matriz EPS (5).
Amplo espectro de ação — O ozono é eficaz contra bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, vírus envelopados e não envelopados, fungos, bolores, leveduras, protozoários e esporos bacterianos (3, 4).
Zero resíduos tóxicos — O ozono decompõe-se naturalmente em oxigénio (O₂), não deixando subprodutos nocivos. Um estudo britânico de 2024 sobre a aplicação de ozono na indústria alimentar salienta que esta característica o torna particularmente valioso em ambientes onde a segurança química é crítica (11).
Conformidade regulamentar europeia — O ozono é uma das poucas tecnologias de desinfeção aprovadas ao abrigo do Regulamento de Produtos Biocidas (UE) 528/2012, o que garante a sua segurança e eficácia reconhecidas pelas autoridades europeias (2, 10).
Tempo de meia-vida curto — O ozono decompõe-se rapidamente (cerca de 20-30 minutos em condições normais), o que significa que o seu efeito desinfetante é limitado no tempo (1).
Toxicidade por inalação — O ozono é irritante para as vias respiratórias em concentrações elevadas. A sua aplicação em espaço fechado exige que o ambiente esteja vazio de pessoas, animais e plantas durante o ciclo de tratamento. As normas croatas, alinhadas com as recomendações europeias, limitam a concentração de ozono a 0,39 mg/m³ por períodos máximos de 8 horas diárias (6).
Materiais sensíveis — O ozono pode degradar certos materiais: borracha natural, alguns plásticos (poliuretano, poliestireno), metais não tratados (pode acelerar a corrosão) e têxteis delicados se expostos a concentrações elevadas durante períodos prolongados (7).
Não substitui a limpeza mecânica — O ozono é um desinfetante de alto nível, não um detergente. Superfícies com sujidade espessa ou carga orgânica elevada devem ser limpas mecanicamente antes da aplicação de ozono. O estudo alemão de 2024 recomenda expressamente a combinação de ozono com limpeza mecânica para máxima eficácia (7).
Na limpeza profissional, o ozono é particularmente valioso na desinfeção de ambientes com alto risco de contaminação cruzada: clínicas, lares de idosos, residências sénior, cozinhas profissionais e espaços com elevada rotatividade de pessoas, atuando em conjunto com:
Vapor de alta temperatura — remove a carga orgânica e fragiliza os microrganismos
Detergentes biodegradáveis — emulsionam a sujidade e preparam as superfícies
Nebulização de desinfetantes — completa a desinfeção em áreas de difícil acesso
A verdadeira limpeza profissional não se faz com uma única ferramenta — faz-se com a combinação certa de métodos, validados pela ciência e em conformidade com as normas europeias mais exigentes. Essa é a Ciência do Invisível.